Semana passada, o post “Por que comemos embaixo da escada?” foi absurdamente divulgado. Muito mais do que jamais conseguiríamos imaginar. Foi tanto sucesso que o Fernando até agora não conseguiu responder todos os elogios que recebeu.

mulheres filmmakers mulher videomaker produtoras

Uma mulher atrás de uma câmera de vídeo. (Zuera, sou eu!) — Foto: Rafael Fontana

O problema é que não foi ele que escreveu o texto. Ele, obviamente, poderia ter escrito, mas se diverte muito mais ao se expressar com imagens. Quem escreveu o texto fui eu, Nínive, a segunda metade da dupla, a que gosta de escrever. E os meus amigos me elogiaram (obrigada, gente), mas quem não nos conhece tão bem atribuiu o texto e o seu sucesso, diretamente, ao homem da casa.

Assim como acontece quase todos os dias das nossas vidas. Trabalhar em uma empresa de vídeo faz com que, automaticamente, o fato de ser mulher me exclua de qualquer posição de importância.

Semana passada, filmando um evento, o rapaz da banda que ia tocar na festa veio se apresentar para nós. Estávamos eu e Daniel, um amigo que levamos para filmar conosco. E rolou o seguinte papo:

Cara da banda (perguntando para nós dois): Olá, vocês são da empresa de filmagem?
Eu: Sim.
Cara da banda: (perguntando para os dois): Qual o nome da empresa?
Eu: Brigadeiro Filmes.
Cara da banda (apenas para o Daniel, meio que ignorando a minha existência completamente): Cara, posso te apresentar os caras da banda?
Daniel: Acho que você deveria apresentar a banda pra ela. Ela que é a dona da empresa.
Cara da banda (visivelmente muito sem graça): Ah… é…hmmm. Posso te apresentar os caras da banda?

Cara da banda, por favor, não fique chateado. Se você, por acaso, estiver lendo isso, eu sei que você está surpreso, porque nem se lembra disso. Eu sei que você não teve a intenção. Juro pra você: eu sei disso. Foi meio sem querer. Você entendeu que havendo ali um homem e uma mulher em uma empresa de vídeo, obviamente, é o homem que manda.

Interesse x Capacidade

Vídeo é um negócio complicado, tem um monte de equipamentos diferentes, várias configurações para mexer, uma infinidade de especificações técnicas. Uma mulher não deve dar conta de tudo isso. Ela deve ser a moça do atendimento e aquela que faz a “câmera fixa” nos momentos importantes.

Verdade seja dita que eu não me interesso muito pelas tecnologias do mundo do vídeo. Eu sei apenas o necessário para fazer o meu trabalho e, com certeza, sei muito muito muito menos que o Fernando, que é supernerd e fica com os olhos brilhando quando vê um review de equipamento. Ele ama explicar a construção ótica das lentes, a diferença entre os sensores, a compressão dos arquivos, o espaço de cor, as aberrações cromáticas e tudo mais que está por trás das qualidades de cada uma das coisas que a gente tem.

Mas, veja bem, a diferença entre nós dois é que ele gosta disso e eu não. Sou muito prática. Aprendi algumas questões técnicas que são importantes para o que eu faço, mas não gosto muito de me aprofundar nisso. Eu gosto de cachorros. E sei muito mais sobre cachorros do que ele. Ele sabe as coisas essenciais sobre o nosso cachorro, mas não se interessa tanto pelos pormenores da vida canina, como eu. É como badminton, culinária, pintura à óleo, jogos de videogame, peixes exóticos ou literatura: uma questão de interesse.

Não significa que ele não tenha condições de aprender tudo sobre cachorros, ou que eu não tenha condições de virar uma especialista em sensores de câmera. É só uma questão de interesse.

A maior parte das mulheres não se interessa tanto por tecnologia, mas isso não quer dizer que são inferiores no que fazem. No campo de vídeo (de casamento), dá pra contar nos dedos de uma mão só as mulheres que dão nome para suas próprias empresas. Normalmente, quem empresta o nome para a marca é o homem ou, se a empresa tem um nome não pessoal (como no nosso caso), ninguém conhece as mulheres por trás da marca. Até conhece, porque elas são, na maior parte dos casos, as “esposas”. Mas elas são pouco mais que as esposas. Quem palestra, quem posta, quem mostra, quem aparece é sempre o homem.

Na fotografia, a gente vê um monte de mulheres à frente do negócio. Quase tanto quanto os homens. E elas se sentem bem. Na fotografia, a gente vê muitos “esposos” ajudando as mulheres. Por que isso não acontece no vídeo?

Dividindo o trabalho

A gente aqui faz diferente. Dividimos todas as responsabilidades. Não foi sempre assim, mas passou a ser assim depois da primeira vez em que contratamos um freelancer para nos ajudar e eu fui jogada para escanteio durante o dia todo. A dupla masculina esqueceu da minha existência, porque havia muito equipamento pra discutir, muita coisa pra inventar juntos, até cartão de visita distribuíram juntos, sem mim. De repente, eu estava lá de assistente.

Rodei a baiana. DR vai, DR vem e eu disse que não tinha largado meu emprego pra ficar na sombra de ninguém. Que se essa tal de Brigadeiro Filmes ia dar certo, a gente ia fazer isso juntos. Que eu não ia ser só o atendimento e não ia mais fazer câmera fixa, que não precisava ir comigo no making of da noiva. Eu sei fazer isso sozinha. Eu posso fazer isso sozinha. E eu posso fazer isso sozinha muito melhor do que a gente faz em duas pessoas.

Isso faz mais ou menos três anos. Foi uma mudança e tanto. De repente, eu e todas as minhas inseguranças estávamos lá, com direitos e deveres iguais. Com a responsabilidade toda. Errei muito (ainda erro) e o Fernando erra também. A diferença é que, hoje, eu não fico mais atrás do tripé vigiando a câmera fixa (que, acreditem em mim, nunca vai fugir dali). Eu vou pra onde precisar, faço o que der na cabeça e estou na linha de frente, trabalhando em perfeita coordenação, sabendo que, se eu falhar, o Fernando vai estar lá e, se ele falhar, eu vou estar lá. O salto de qualidade que o nosso trabalho deu depois disso eu não consigo nem descrever. A gente trabalha em duas pessoas e, até hoje, tem gente que não acredita que não sejam cinco filmando ali.

Tempos atrás, ministrando um curso (nós dois juntos), uma moça perguntou “Quem de vocês é o criativo?”. A resposta, para nós, era tão óbvia que acho que soou até um pouco seca. “Os dois, claro”. A moça estava cética. Olhava incrédula. “Na minha empresa, eu só faço o básico. Meu marido é o criativo. É ele que faz tudo. Como vocês fazem isso?”

Moça, na hora passou tanta coisa na minha cabeça pra te falar, mas eu não consegui. Não podia sair do assunto do curso mas, durante todo o restante das aulas, ficaram passando na minha cabeça mil imagens, de todas as vezes que eu vi um homem e uma mulher fazendo o making of da noiva juntos, a mulher segurando as lentes, a mochila e o homem filmando sozinho; dos congressos que a gente já viu sendo divulgados por aí sem nenhuma mulher no palco; dos grupos de Facebook, WhatsApp, etc. sobre vídeo sem nenhum post feito por uma mulher; do workshop de edição que fiz outro dia, acompanhada de 29 homens e nenhuma mulher.

Moça, você é criativa sim. É inteligente, é interessada, é responsável. Você pode fazer o que quiser. Não faça o básico. Faça o artístico, faça o diferente, aprenda (pode ser só o necessário) e assuma novas responsabilidades. Deixe a câmera quietinha lá no tripé e observe em volta. Você vai ver o seu trabalho de uma maneira diferente, e vai se apaixonar ainda mais por ele. Vai querer fazer sempre mais e melhor. Não se prenda às suas inseguranças nem a nada que ninguém te disser. Você pode fazer qualquer coisa. Qualquer coisa.

Não tem problema não gostar de tecnologia. Eu também não gosto de administração, mas a gente tem que saber um pouquinho pra gerir o nosso negócio. A gente aqui divide as coisas por talentos e afinidades. Eu jamais terei o dom da cor como o Fernando tem (e é dom mesmo, gente, não tem jeito). Por outro lado, eu sou melhor com as palavras. Logo, eu cuido de tudo o que é texto e ele de tudo o que é grading. As edições, a gente divide meio a meio e, para tudo o que julgamos que a opinião do outro seja importante, nos consultamos mutuamente.

No casamento, a gente se divide pela logística mesmo. Eu fico com a noiva e o Fernando fica com o noivo. Como o making of do noivo é rápido, ele fica com a decoração também, e vai preparando as coisas para a cerimônia enquanto ainda estou no caminho. Quando eu chego, nos 2 ou 3 minutos disponíveis antes de tudo começar, eu ajudo com o que falta e passo conferindo todos os equipamentos. Ou seja, qualquer coisa que saia errada vai ser culpa dos dois. Se der tudo certo, o mérito é dos dois também. E, quanto mais eu aprendo, mais vamos reorganizando as funções.

Eu poderia falar sobre feminismo, mas tenho muito a aprender ainda, ainda tem muito machismo dentro de mim (em processo de desconstrução). Confesso que, pela postura das mulheres que eu vi até hoje no meio, eu mesma olho para elas, às vezes, com um pouco de machismo, meio que já sabendo que ela é secundária na empresa, como eu fui um dia.

O que eu queria dizer no fim das contas é o seguinte:

Mulheres, não fiquem na sombra de ninguém. Façam, aprendam, apareçam, errem e não tenham medo de se mostrar. Homens, coloquem suas parceiras em condição de igualdade: levem-nas para os palcos para palestrar, dividam a responsabilidade com elas, ensinem, confiem e, sejam, vocês, os assistentes, de vez em quando. Depois, voltem aqui pra nos agradecer pela mudança que vão ver no seu trabalho. E, você que tá lendo isso aqui e achando que não tem nada a ver com o assunto, pare de atribuir o crédito de tudo o que é bom, automaticamente, aos homens. Esse seu preconceito velado é um lixo, e você destrói a autoestima de uma mulher toda vez que dá o crédito do feito dela pra outra pessoa.

Eu queria ver, em um futuro bem próximo, um monte de mulheres nos cursos aprendendo, nos palcos dos congressos, falando, com segurança e felizes, sobre seus trabalhos. Falando de storytelling, de atendimento, de marketing, de carreira e, por que não, de tecnologia?

Não tem problema ser só o atendimento, se você gosta disso. Mas tem problema quando, na hora de trabalhar, você ocupa uma função que subestima a sua capacidade. Tem problema quando dizem que homem não pode fotografar newborn, mulher não pode fotografar nu feminino, homem não pode fotografar nu masculino, mulher não pode fazer cenas de steadicam. Tem problema sim, porque isso é restringir a nossa capacidade enquanto seres humanos. A única coisa que não pode no nosso mercado é gente picareta enganando os outros (e isso é assunto pros próximos posts).

A arte existe pra gente ser livre, não é pra ter regras. Parem de cagar regras sobre quem pode fazer o quê. Mulher pode fazer qualquer coisa, homem pode fazer qualquer coisa. Estamos combinados?

E, se precisarem de ajuda nisso, contem com a gente. Foi difícil, mas, hoje, somos uma dupla que funciona, e funciona na base da confiança. Cada um faz o que gosta, e não o que a sociedade machista diz que é o que cada um tem que fazer. O Fernando cozinha e pinta caixinhas. Eu carrego peso, falo palavrão, cozinho muito mal e tenho zero coordenação motora para atividades manuais. E nós somos felizes assim.

Entender isso é um processo, e não é rápido nem fácil mas, quando a gente entende e aceita, a vida fica muito mais fácil e mais leve. A gente descobre que pode tudo.

Este post foi originalmente publicado no nosso Medium. Você pode ler este texto e acompanhar toda a discussão aqui.

E para todas as mulheres, fotógrafas ou videomakers que queriam debater o mercado e a profissão sem a necessidade de perder tempo debatendo com macho ignorante, sintam-se convidadas a participar do nosso grupo do Facebook: Grupo Foto e Vídeo das Mina.

Share post with: