Algumas semanas atrás, assisti a uma palestra da Panoptes Fotografia, uma família que dedica a vida a registrar as vidas de outras pessoas de uma forma maravilhosa. Porém, mais do que a palestra inspiradora, o que mais me impressionou em tudo o que eles nos mostraram foram as fotos da própria família. Eu olhava as fotos daquelas crianças e ficava morrendo de inveja. Quando elas crescerem, vão ter fotos incríveis para contar sua própria história. Terão muitas e muitas fotos, mostrando não só quem são elas (porque os responsáveis por esses registros são, justamente, seus pais, que os conhecem como ninguém), mas também terão fotos maravilhosas que mostram a casa onde cresceram, o jardim, a sala, o quarto, as texturas, como a luz entrava pela janela, enfim, mostram detalhes que ajudam a contar quem eram aquelas pessoas quando eram crianças e, por meio da história, ajudam a mostrar quem elas se tornaram.

brigadeiro filmes memórias lab documentário equipamento vidaEu nasci no fim da era da “fotografia caseira de filme”. Até os meus 12 ou 13 anos, mais ou menos, a minha família comprava aqueles filmes de 12/24/36 poses e registrava com eles os momentos importantes das nossas vidas (aniversário, apresentação da festa junina, formatura e outras pequenas celebrações).

Talvez porque não fôssemos nós que pagássemos pelo filme e pela revelação, meus irmãos e eu éramos um pouco mais desapegados dos momentos importantes, e saíamos queimando filme por aí. Eu gostava de fotografar as pessoas (nós mesmos), em qualquer situação boba. Já os meus irmãos, na época com uns 4 ou 5 anos, não entendiam exatamente como funcionava aquilo, mas gostavam de ver a luz do flash acender e, por isso, nos nossos álbuns Kodak, tem várias fotos do chão e dos móveis, além de algumas “selfies acidentais”.

Foi quase desesperador perceber que a minha inveja daquelas crianças com fotos maravilhosas era não só porque as fotos eram maravilhosas, mas porque, na real, nós temos pouquíssimas fotos nossas. As últimas fotos que temos dos meus irmãos foram tiradas quando eles tinham, mais ou menos, uns 7 anos, e depois disso, tudo se perdeu no “meio digital”. Eu ainda tenho alguns CDs chamados “Fotos dos Passeios” e coisas assim, mas durante a minha mudança de casa, testei um deles e não funcionava mais. Parece besteira, mas perdi várias fotos da minha turma da oitava série e várias fotos minhas, dos meus 14/15 anos.

Obviamente, não estou aqui pra falar que a fotografia de filme é mais legal, porque eu nem sei o que é a “fotografia de filme”. Só estou dizendo que a “documentação da minha vida” mora em um baú colorido que fica embaixo de um aparador e ela termina com as “fotos oficiais” do fotógrafo da minha formatura em 2006.

E por que isso me incomoda tanto?

Bom, nós trabalhamos com casamentos. Somos fotógrafos e cinegrafistas que dedicam suas vidas a registrar as vidas dos outros. Na maior parte do tempo, são pessoas que não conhecemos bem, mas que nos pagam para que possamos criar para elas, lembranças bonitas e emocionantes de pessoas e momentos importantes em suas vidas. Para isso, nós abandonamos as nossas próprias famílias e amigos e nos dedicamos de corpo e alma a guardar momentos para aquelas pessoas.

Nós temos um dom, a técnica e o equipamento necessário para fazer isso, e fazemos isso todo final de semana, quase ao limite da exaustão, mas nunca desistimos no meio porque sabemos que, para as pessoas que nos escolheram, o motivo pelo qual estamos ali é muito importante e PRECISA ser registrado.

Agora, se nós fazemos isso sempre e já dominamos tanto o nosso trabalho que seríamos capazes de fazer isso sem sequer precisar pensar a respeito, por que não fazemos isso para nós mesmos? Por que não documentamos as nossas próprias vidas usando os nossos próprios recursos?

Sim, eu sei que a gente tem smartphones. Eu tenho um monte de selfies, pratos de comida, paisagens de lugares maravilhosos que visitei e umas 450 fotos dos meus cachorros. Mas tenho que ser sincera e dizer que elas todas estão em uma pasta chamada “Backup do Iphone” e, eu não tenho uma noção real de tudo o que tem ali dentro. É uma grande bagunça.

Nessa “vida moderna”, a gente se acostumou a registrar tudo de forma banal, o tempo todo. A gente vai em um show e, por mais perto que fiquemos do palco, assistimos tudo dentro da tela do celular, porque “precisamos ter tudo gravado”. Mas, no fim das contas, todo mundo sabe que ninguém nunca mais deve assistir aquilo depois de postar no Facebook com um monte de #hashtags.

Também não vou falar da banalização da fotografia porque isso dá pra um longo ensaio acadêmico, que aliás já foi escrito no passado pelo Fernando e é mesmo uma reflexão extensa e muito interessante.

O que estou falando aqui é sobre nos dedicarmos a registrar mais das nossas próprias vidas. Pode ser com o celular mesmo, não tem problema, mas se temos Full HD, lentes, microfones, iluminação, gravadores e uma forma maravilhosa de criar narrativas, por que deixar de fazer algo especial para nós mesmos? Por que não mostrar para os nossos filhos, no futuro, como era a nossa casa hoje, quais eram os nossos sonhos, o que buscávamos, quem eram as pessoas importante pra nós? Quem era a “bisa”, como era a voz dela? Se fazemos isso pelos nossos clientes, por que não fazer por nós?

Estou escrevendo este texto dentro de um avião. Estou a 33 mil pés de altura, voando há mais de 2 horas. Estou saindo de São Paulo e viajando para Natal, no Rio Grande do Norte. Em uma cidadezinha próxima, minha mãe nasceu e cresceu, e eu estou indo até lá para visitar os meus avós, os quais não vejo há 17 anos. Não vou dizer que nunca tive vontade de ir, mas a situação financeira lá em casa nunca foi boa o suficiente para que nós quatro pudéssemos viajar juntos. Agora que eu posso, decidi ir, sozinha mesmo, para visitá-los.

Meu avô não está muito bem e, a cada dia que passa, sabemos que teremos um pouquinho menos dele presente conosco. Por conta disso, e porque já há alguns anos ele está assim, eu decidi não esperar “férias”, um tempinho livre e nem nada disso e me forcei a ir. Achei melhor ir agora, porque a gente nunca sabe como vai ser o dia de amanhã.

Enquanto fazia os meus preparativos, pensei em qual das minhas câmeras eu iria levar, porque obviamente, queria tirar algumas fotinhos da viagem. E daí caiu a ficha do que eu estou falando agora. Na última foto dos meus avós que eu tenho em casa, e que fica em um porta-retrato no meio da nossa sala, está escrito 1992 no verso. É uma das minhas fotos preferidas: os dois na frente de sua casinha, um ao lado do outro. Depois disso, muita gente foi lá e tirou trilhões de fotos de tudo, mas não temos nada disso guardado. Todo mundo chega, mostra 670 fotos na televisão e depois joga em alguma gaveta. Nesse tempo todo, mal consegui saber o que aconteceu com a casinha. Só sei que pintaram de verde, porque essa é a cor de fundo de todas as fotos.

Eu decidi então fazer alguma coisa para, de alguma forma, guardar minhas memórias desta viagem e da minha família da forma que se deve. Escolhi o meu equipamento como se fosse uma diária de gravação para a qual eu fui contratada, tomando o cuidado de não levar “coisas demais”, para não atrapalhar a viagem.

A verdade é que, neste momento, eu não sei ainda o que vou fazer. Só sei que vai ter foto e vídeo. Eu não pretendo fazer um documentário, até porque eu sou aquele tipo de perfeccionista insuportável que, se fosse mesmo fazer um documentário, voltaria sem gravar nada porque o roteiro não ficou bom. Ao mesmo tempo, o que me motivou a ir até lá foram os meus avós, e eu não quero deixar de viver esses momentos com eles de forma alguma. Quero curtir cada segundinho da minha viagem de todas as formas. Mas decidi levar a minha câmera comigo e contar essa história toda como se fosse uma das histórias que eu sempre conto no meu trabalho, registrando todos os momentos e todas as pessoas que forem importantes para o cliente, que dessa vez, sou eu mesma.

Eu tenho certeza de que vai sair disso algo muito simples, porque eu realmente estou indo com outras prioridades e, porque apesar de ser uma boa “filmadora”, eu sou uma péssima fotógrafa. Mas vai ser sensacional poder voltar pra casa e compartilhar com a minha família um pouco da nossa própria história, e poder imprimir uma foto e escrever atrás dela “2016”. Poder editar um videozinho e guardar nele a voz dos meus avós, as ruguinhas em Full HD, a casa e um pouquinho de tudo o que queremos guardar deles. Dá uma emoção só de pensar nisso.

E o meu convite hoje é para que mais gente faça o mesmo.

Tire a sua câmera da mochila e fotografe os seus pais, os filhos, o cachorro, sua esposa, seu marido, sua casa. Conte um pouquinho da sua própria história todos os dias, na forma de imagens. Coloque o seu amor e a sua “arte” a serviço de você mesmo, antes que seja tarde demais para registrarmos o que já não estará mais aqui.

Na semana passada, vivemos uma dor que eu não sei explicar direito. Um dos nossos noivos mais queridos faleceu. E nós estávamos, no dia anterior, falando sobre ele, falando sobre ir até a casa dele e gravar com o casal sobre o exemplo de luta e de superação que eles eram para todos, enfrentando uma doença terrível sem nunca deixar sua fé ser abalada. E a notícia da morte daquela pessoa que, mesmo tendo um curto contato conosco, nos marcou tanto, foi forte a ponto de nos fazer chorar por horas (e, só de relembrar este momento, é impossível não derramar algumas lágrimas no teclado também). Doeu demais perdê-lo, mesmo não sendo tão próximos. E, finalmente, caiu a ficha que de, de fato, não dá pra esperar. Não dá pra esperar a doença, a morte, o afastamento, o fim, para irmos atrás daquilo que é importante para nós, porque depois que acaba, não é mais importante, é só mais uma perda, dentre as tantas outras que vivemos na nossa profissão.

É possível que este texto não tenha ficado muito claro, e as ideias não estejam na melhor organização possível, e isso se deve ao fato de que o avião me deixa muito desconfortável, mas eu decidi deixar as coisas como elas vieram, porque a partir de agora, vou mergulhar fundo nessa aventura, e quero aproveitar ao máximo, mas não podia deixar de compartilhar esse incômodo com vocês, porque perceber que eu não tinha nada da minha vida registrado, mas que eu tenho trechos da vida de mais de 300 pessoas guardadinhas e lindamente contados nos meus HDs foi algo muito complicado de se lidar, e eu imagino que, se você parar para pensar a respeito, vai sentir este mesmo incômodo agora mesmo.

Estarei de volta em alguns dias, e prometo dividir um pouquinho das lembranças desses momentos todos com vocês. Hora de apertar os cintos. Bom pouso para mim. 🙂

Nínive

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